MC Dandara

13/07/2008 | comentários: 1

Dandaras são guerreiras, lindas pérolas negras. Dandara foi mulher de Zumbi dos Palmares, mas é também o nome artístico de Idaulina Alves da Silva. Os olhos enternecidos dessa moça contrastam com a sua voz potente, quando MC Dandara conta e canta a sua história. Desde pequena, em Cururupu no interior do Maranhão, Idaulina tinha uma meta, queria ser cantora.

Nessa época, morando nas ruas e carregando bolsa de madame na saída dos mercados, Idaulina ansiava pelo dia em que mostraria a sua arte na cidade grande. Ela ouvia Alcione, Beth Carvalho e Ney Matogrosso nas rádios e sonhava. Idaulina ficou poucos anos na escola, nunca aprendeu partitura, ou como ela diz: "nunca soube o que é um tom", mas de tanta determinação, aprendeu sozinha a transformar seu difícil cotidiano em canções, compondo letras e fazendo arranjos. Aos dezessete anos chegou à Rodoviária da cidade do Rio de Janeiro com uma única certeza, a de que se ela soubesse cantar "iriam ouvir a sua voz". Essa Garota Guerreira diz que sonha, mas com o "corpo inteiro no chão". Depois de fazer muita "faxina pras brancas", Idaulina teve o primeiro endereço fixo no Rio de Janeiro, no bairro da Taquara, onde fez amigos queridos e montou uma barraca de doces para garantir o seu próprio sustento, pois nunca gostou de pedir dinheiro a ninguém e sabe que cantar é um trabalho espinhoso.

Hoje, a barraca de Idaulna é conhecida nas redondezas como a barraca de MC Dandara. Lá, não só a crítica social e os tempos ruins, como também as brincadeiras e os tempos em que alguém "se-foi-e-me-deixou" transformam-se em doces canções. Idaulina cria sambas, forrós, pagodes, mas é no funk que Idaulina vira MC Dandara. Na década de 1990, inspirada pela imagem da única preta de prestígio que via na TV, Idaulina compôs e cantou funk para defender a sua irmã de cor, a então Senadora Benedita da Silva.

Em 1995, participou juntamente com seu amigo MC Biano do Festival de Rap no Merck, ganhando primeiro lugar com o "Rap da Benedita". Para Dandara, o funk é mais do que música e profissão, é "a linguagem da favela". Em 2006, Dandara lançou na coletânea "Funkão do Tamborzão" de DJ Marlboro, o chamado "Rap do Alcatraz". Para ela, esse rap é um "grito de socorro", pois "hoje, a favela é como uma prisão para muitos. Muitas pessoas de lá não conseguem sair, pois sofrem com a pobreza e o preconceito dos ricos e brancos."

Idaulina utiliza o funk para criticar o racismo e o preconceito, mas também para brincar com a vida. MC Dandara é versátil e também compõe músicas com conteúdos pra lá de sensuais. É compositora de tanta criatividade que, para cada funk, Dandara faz duas versões: uma para as rádios e outra para os shows. Com um funk que é grande sucesso nas pistas e nas rádios, Dandara leva a platéia ao delírio, quando celebra a sensualidade feminina, cantando a música "Pode me chamar de Boa".

MC Dandara ousa e já que a sociedade fala mal das prostitutas é, em nome delas, que ela compôs o rap "Prostituta de Elite". Mas Dandara também é irônica. De tanto ouvir falar das "mulheres melancia, melão, maçã", MC Dandara preparou o rap da "Mulher Jamelão" em que ironiza o mundo funk nos seguintes versos:

"se funk virou fruta/ o baile virou um sacolão/ sou Dandara, tô na onda/ sou a mulher jamelão".

MC Dandara transforma tudo em canção e critica a nova onda do funk que só valoriza as letras pornográficas. Agora, em fase de preparação de um novo CD, Idaulina está reunindo funks que mostram as diversas facetas de Dandara Guerreira. Com músicas como "Mulher Jamelão", "Chicholina" e "O Bagulho que tu escolheu", Dandara solta a sua voz potente, entoando funks com letras sensuais e com letras conscientes.

MC Dandara é crítica e espera que com seu novo CD, ela possa mostrar que "o funk pode (e deve) falar de sexo, mas o funk é também a língua da favela e tem muito mais recado para dar."

Baixe "Rap da Benedita"


Baixe "Pode me chamar de boa"

Créditos Texto/Foto: Adriana Carvalho Lopes - Drica Lopes