MC's Marquinhos (in memorian) e Dollores

23:25

Um das últimas entrevista do MC Marquinhos

Marcos Ribeiro Chaves, o MC Marquinhos, DJ de 26 anos, que estourou com a dupla Marquinhos e Dolores, investiu num estúdio na própria Rocinha. Agora, como produtor, ensina o caminho das pedras para rapazes da comunidade que estejam em busca da fama.

Sua experiência como produtor foi adquirida pela própria vivência e pelos problemas que enfrentou.
“Funkeiro não tem banda - sua banda é a base da música que o DJ toca quando ele está no palco -, então, ele depende do DJ para produzir, criar o instrumental”, explica.
Marquinhos, porém, só chegou a esta conclusão depois de esquentar muito a cabeça.
“Eu e o Dolores saíamos da Rocinha para ir até um estúdio em São Gonçalo ou no Lins de Vasconcelos. De uma forma ou de outra, perdíamos o dia inteiro sem a garantia de um trabalho bem feito”, diz.
Aos poucos, todas essas dificuldades serviram para que eles fossem aprendendo como tudo era feito. Quando montou seu estúdio, o MC percebeu que havia ali um nicho de mercado. Muitos frequentadores de bailes começaram a procurá-lo.
“Foi engraçado: tinha de tudo. Às vezes, o cara não tinha a menor noção, mas insistia para que eu produzisse sua música.”
A localização da Rocinha facilitou o intercâmbio com outras favelas.
“Aqui é Zona Sul. Vem gente da Cidade de Deus, de Rio das Pedras, de Jacarepaguá. E até artistas consagrados no funk como Galo e Júnior, e Leonardo”, comemora o MC. 
Ao que parece, sua empreitada como produtor começa a mostrar resultados. Um dos primeiros MCs a estourar no meio funk de todo o país, Marquinhos era office-boy quando se juntou ao segurança Aldenir Francisco dos Santos, o Dolores, de 29 anos, para criar a dupla Marquinhos e Dolores. Entraram no mercado em 1993, mas o sucesso só veio no final do ano seguinte, com o Rap da Diferença. Foi um susto.
Trabalhávamos o mês inteiro para ganhar o equivalente a um salário mínimo. De repente, a gente estava subindo no palco, cantando três musiquinhas e faturando dois salários numa noite”, lembra o MC Marquinhos. “Aquilo era novo e causou muito impacto na nossa vida”, acredita Dolores.
No início tudo era festa.
Com o tempo, fomos nos profissionalizando. E vendo que tudo é fruto de esforço e trabalho, e nada é dado”, avalia. “Onde quer que sua música toque, você tem direito a receber comissão, seja rádio, TV ou em show de outro artista”, ensina.
Pouco tempo depois de um dos últimos shows dos Mamonas Assassinas, no antigo Metropolitan, eles receberam uma correspondência do ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais).
 “Somos associados, e soubemos dos nossos direitos autorais referentes ao Rap da Diferença. Isto significa que os Mamonas cantaram nossa música durante o show e nós recebemos por isso”, conta.
Naquele tempo, o funk era bem diferente.
O grande mote era falar sobre paz, a mensagem era para o cara não brigar nos bailes. Quem falava disso tinha a maior chance de estourar”, explica Marquinhos. 
Ele lembra que um dos primeiros cantores de rap a fazer sucesso foi o DAD, com o Rap do Pirão. Logo depois veio o MC Galo, com seu Rap da Rocinha, e MC Mascote e MC Neném, que fizeram uma homenagem à atriz assassinada Daniela Perez. Só depois vieram Força do Rap, Marquinhos e Dolores, Cidinho e Doca, Willie e Duda, Claudinho & Buchecha e uma série de outros.
“Nadamos contra a corrente. Chegamos falando da diferença entre o charmeiro e o funkeiro. Na época, ambos tinham grande penetração nas favelas”, completa Dolores. Fora delas, poucas pessoas conheciam o movimento funk.” 
Eles contam que o Rap da Diferença foi um dos primeiros a tocar em boates e danceterias. Ou seja, fora do ambiente das comunidades.

O MC Marquinhos sentiu na pele a rapidez de sair do anonimato para a fama.
“Quando vimos, a música estava estourando no país. A televisão descobria o funk e nós éramos convidados a gravar para o programa da Xuxa, Vídeo Show, o extinto Mulheres, Casseta e Planeta, além do programa da Furacão 2000 na CNT, que tinha uma audiência fortíssima da comunidade funkeira aos sábados”, lembra.
Eles sentiram o frenesi do sucesso.
“As gravações do programa do Rômulo Costa eram quinzenais e, às vezes, pedíamos para não comparecer porque não estávamos agüentando a roda-viva de shows. Mas aí vinha aquela cobrança: se a gente não for, vai acabar perdendo espaço. E a gente terminava indo”, diz.
Na época, os chamados “artistas de favela” eram uma novidade para os empresários e vice-versa. Depois de um certo tempo, a euforia começou a diminuir.
“O empresário é quem corre atrás de shows para o artista, só isso. No início, o cara acha que depende de alguém do meio para agendar shows, acompanhar, fazer uma série de coisas. Depois de um certo tempo de estrada, não faz tanta diferença assim. Hoje, quem tá começando e pensa em empresário não vai arrumar nada; o mais importante é fazer sua música acontecer, tocar, cair na boca do povo. Se a música estiver tocando até seu pai pode empresariar. Já o cara que tem fama dita as regras...”, explica.
Segundo Marquinhos, existem três grandes equipes de som fortes no funk: a Pipo’s, o DJ Marlboro e a Furacão 2000. Cada uma tem sua produtora e, de uma forma ou de outra, o artista terá que editar sua música com um dos três. Caso a música aconteça, um deles terá uma fatia em cima do trabalho do artista.
“Se estourar a nível Rio, ganha a nível Rio; se estourar a nível Brasil, ganha a nível Brasil”, fala.
Mas tem o outro lado da moeda.
“Se o artista editar com o Marlboro, por exemplo, enquanto sua música não estourar, nem a Pipo’s nem a Furacão vão tocar sua música”, fala. Os meandros do funk dependem de muita negociação. “À medida que o artista vai conhecendo seus direitos, ele começa a raciocinar: ‘cadê meu dinheiro disso ou daquilo?’ Nesse momento, é preciso jogo de cintura. Você sabe que tem direito, mas aquele dinheiro não apareceu, o que fazer? Bater de frente ou fazer vista grossa? É bem complicado. Nessa hora, é importante saber que é bom estar bem com todo mundo, se não, numa próxima música, a galera vai começar a te boicotar, te tirar do mercado”, avisa.
A dupla Marquinhos e Dolores não chegou a se desfazer. Eles continuam na estrada e lançaram outras músicas, mas nada que se comparasse ao sucesso do Rap da Diferença. Com o tempo, a dificuldade em lançar novos trabalhos foi criando uma outra mentalidade na cabeça da dupla.
“O Dolores foi retomando as atividades no comércio, mas temos alguns trabalhos na gaveta, esperando o momento certo para lançar”, diz. 
Enquanto isso, ele vai investindo na atividade de produtor.

Desde o começo, se depara com gente sem talento. E outros com grande potencial.
“É bem difícil encontrar um artista completo. Ou o cara canta bem e escreve mal, ou vice-versa. Ou ainda o cara canta e escreve bem, mas, na hora de subir no palco, o artista some, não tem presença”, conta. 
Quando isso acontece, ele não se dá por vencido, e tenta ajudar, coloca uma pilha.
“Já era para ter mais de dez MCs da Rocinha fazendo sucesso nas rádios e nos bailes. Tem aquela galera que chega no estúdio com um trabalho legal, com boa voz e performance de palco, mas que não se preocupa em trabalhar a música. Não vai até a rádio comunitária pedir para que a coloquem para tocar, nem pede para se apresentar nos bailes. É aquele que não se esforça, que acha que pode ir dormir e quando acordar, sua música vai estar tocando em todas as rádios”, lamenta.
"Rap da Diferença"

http://www.4shared.com/file/33470200/c4a8d563/Marquinhos_e_Dolores_-_Rap_da_diferena.html?

(Créditos Texto: Viva Favela/Vida Cultural - Foto: Claudia Duarcha)

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1 comentários

  1. fabiano; "Rap da Diferença" saudade do marquinhos, o dolores continua na luta ai no fank abraços

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