Fim do Festival de Galeras

02/04/2010 | comentários: 26

Quem curtiu funk na década de 90, com certeza senti saudade do Festival de Galeras. O evento que foi criado para colorir os bailes e unir as galeras, foi muito mais além, contribuiu também para o crescimento do movimento e o surgimento de grandes artistas. Criticados por uns e idolatrados por outros, os festivais tiveram seus pontos positivos e negativos.

Como pontos positivos, eu destaco o surgimento dos MC's, novas equipes, o amor incondicional e o respeito por sua comunidade. Nunca se ouviu falar tanto em favelas como nesta época. Lugares esquecidos pela sociedade eram enaltecidos por jovens de todas as classes, muitas ficaram famosas, apagando aquela imagem de lugar proibido ou perigoso. Quem não tinha curiosidade de conhecer todas as comunidades citadas nos Raps? Ou visitar aquela comunidade campeã do festival? O espírito coletivo e a vontade de ajudar o próximo, também foram temas discutidos. Várias etapas tinham como causa nobre ações sociais (doação de sangue, coleta de alimentos, roupas etc.), ações essas que nunca tiveram destaque na mídia.

Com tantas equipes aderindo os festivais, eles tomaram uma proporção muito grande e com isso vieram os problemas. A violência gratuita e o excesso de rivalidade por parte daqueles irresponsáveis que não sabiam honrar o espírito do funk.

Paralelamente foram surgindo os bailes de corredor, que tinham como unico e exclusivo propósito a violência. Nesses bailes a música era realmente o de menos, lá não tinha festival ou confraternização, os clubes eram transformados em ringues, jovens se espacavam pelo simples prazer de quebrar a cara do outro. Cada galera escolhia o seu lado (A ou B), no meio uma grande corda dividindo os lados ao som da montagem mais instigante. A veiculação desses bailes eram feitas de forma "normal" pela rádio Imprensa. Nos anuncios, o locutor dizia: "pode vim sem medo, uma entrada para o Lado A, outra para o Lado B, banheiros separados e ambulância a disposição na portaria". Essa "brincadeira" de mau gosto por muitas vezes teve um final dramático. Jovens eram mortos nas portas dos bailes e para não ter a imagem do seu clube suja, eram jogados na porta de outros clubes, uma crueldade tamanha que ajudou muito para imagem negativa que o funk trás até hoje em sua história.

Lembro de um baile na Avenida Brasil, produzido pela ZZ Disco. Zezinho um dos empresários mais polêmicos da época, conhecido também por seru estilo agressivo e inventivo criou a montagem do "incorporado", montagem essa criticada por muitos por parecer coisa do "capeta". Pronto! Prato feito para imaginação fértil do empresário que teve a idéia de colocar uma pessoa vestida de diabo no baile, na hora desta musica. Em meio a confusão e pancadaria, o baile pegando fogo literalmente, uma fumaça foi jogada na pista, o som parou como se fosse um estouro e debaixo do palco surgiu o tal capeta que saiu correndo em disparada pelo meio do baile deixando todos atônitos. Do mesmo jeito que o "diabo" apareceu, sumiu. Há quem diga até hoje, que muitos jovens deixaram de frequentar bailes por conta deste episódio, outros continuam correndo até hoje e outros viraram evangélicos. Se é verdade ou não, não saberemos, mas essa história saiu em vários jornais na época deixando muitos assustados.

Voltando ao Festival de Galeras. Como toda ação tem uma reação, a massa funkeira foi prejudicada por causa disso. A Ligasom (Liga Independente das Equipes de som) e a Secretaria de Segurança em comum acordo, resolveram acabar de vez com os festivais. Não teve choro, nem vela, assim que a medida foi tomada os clubes que não se enquadraram nas normas foram interditados. Essas normas tinham como base o fim dos Festivais, do transporte exclusivo dos funkeiros em onibus fretados, dos corredores de embate e da apologia da violência na comunicação ou por omissão.

Vale lembrar que o Zezinho foi um general, um coronel ele por várias vezes se descreveu como "o empresário do diabo". Tinha muitos fãs pelo seu estilo e por nunca se esconder atrás de religião ou política. Sempre fez o que achou certo, mesmo passando dos limites. ZZ Disco muitas vezes atribuída a violência não foi a única a fazer bailes de corredor, equipes de renome também fizeram. Furacão 2000 é uma delas.

E com isso, umas das coisas mais legais nos bailes foram exterminadas, a perseguição ao funk e aos funkeiros aumentaram com a descupla exclusiva a esses bailes de corredor, que eram a minoria.

A verdade é uma só: "Violento ou não, eles mudaram a história do Funk aqui no Brasil".

Créditos: Claudia Duarcha