Nascido nas favelas do Rio, o funk está seduzindo a MPB e já alcançou a voz de Roberto Carlos

03/09/2012 | comentários: 0

Quando Salve Jorge, próxima novela das nove, estrear, em outubro, o público vai conferir uma nova faceta do cantor e compositor Roberto Carlos. O Rei acaba de criar um funk especialmente para a trilha sonora da obra de Gloria Perez. A autora chegou a declarar que ficou surpresa e orgulhosa com a atitude do artista, um dos mais populares do país, e que se encantou pela letra, que ainda não tem nome.

Não é de hoje que Roberto flerta com o ritmo, que nasceu nas favelas do Rio de Janeiro. Em 2007, convidou MC Leozinho para participar do seu especial de fim de ano e fez um dueto em Ela só pensa em beijar. Na época, o cantor de Cachoeiro do Itapemirim afirmou que estava ouvindo a canção no rádio e que ela chamou sua atenção pela “letra maneira e pela poesia muito bonita”. “É um funk romântico, uma canção de amor”, ressaltou o Rei durante a apresentação. Depois desse encontro, que MC Leozinho considera um divisor de águas em sua carreira, o funkeiro chegou a se apresentar no cruzeiro marítimo de RC e foi lá que decidiu gravar Negro gato, sucesso na voz de Roberto. “Foi ele quem me sugeriu. A música ganhou elementos do funk e ficou bem legal. Depois, Roberto Carlos me pediu a indicação de um produtor porque realmente estava pensando em compor um funk. Achei maravilhoso, apesar de não conhecer a música ainda. Quando alguém como ele faz isso, ajuda e muito a nossa música, que já sofreu e ainda sofre muito preconceito. Quem sabe ele até não vira o Rei do funk?”, comemora Leozinho.

Assim como Roberto, outros artistas vêm descobrindo e incorporando o estilo em seus trabalhos. Um dos criadores do funk carioca, o DJ Marlboro, que esteve em Belo Horizonte semana passada para uma apresentação, diz que a classe artística, de maneira geral, sempre viu o gênero com bons olhos e acredita que as perseguições e o preconceito com relação ao funk têm diminuído ao longo do tempo. “Quem sempre discriminou foram os chamados pseudointelectuais. É natural as pessoas terem preconceito em relação ao que não conhecem. O funk é a MPB na sua mais pura essência; é música popular brasileira porque nasceu do povo, e movimenta a massa. É autenticamente nacional”, salienta.

Para Marlboro, o fato de o funk ter origem nas favelas e ter ficado marcado como “som de preto, pobre e favelado” fez com que sofresse certa rejeição, mas que é importante não generalizar, até porque existem várias vertentes. “Tem o funk social, o erótico, o político, o romântico, mas, muitas vezes, as pessoas só querem olhar um lado desse ritmo e um deles acaba ficando mais latente. Não é bem assim. Tanto é que muitos compositores brasileiros estão despertando para a qualidade que existe nesse meio”, destaca.

Pioneiro Este é o caso do cantor e compositor Pedro Luís, que sempre se interessou pela batida do funk e foi um dos pioneiros a incorporar elementos do ritmo ao seu trabalho. O artista, que além do projeto solo faz parte do Monobloco, conta que o gênero o cativou por sua força e representatividade. E que é bom não só para o funk, como para o Brasil e para a música, que artistas de outros segmentos se rendam ao movimento. “A pegada do funk é, num primeiro momento, a apropriação e a adaptação por compositores das favelas da levada Miami base. Depois, ela foi se transformando e ganhando ares próprios. É bem positivo músicos de estilos diferentes se interessarem por ele. É mais um elemento no caldeirão já tão diverso e rico da música brasileira”, acredita Pedro Luís.

O cantor revela que chegou a sofrer críticas e preconceitos por ter utilizado o funk em suas canções, como no lançamento do disco É tudo 1 real, quando um jornalista lhe perguntou por que ele havia usado elementos de funk misturados a canções infantis em Aê, meu primo. “Respondi que, além de achar o gênero interessante, a utilização de refrões de canções de roda ajudava a chamar a atenção para assuntos que eu tocava na canção, etc. E ele concluiu: ‘Pedro Luís já fez melhor que isso...’”, recorda.

Outro que se rendeu ao gênero é o guitarrista, cantor e compositor Celso Fonseca. É dele uma das versões mais charmosas de Ela só pensa em beijar, de Mc Leozinho, e na época chegou a escutar comentários curiosos como: “Essa é a sua mais nova composição?” ou “Nem sabia que essa música tinha letra!”. Celso conta que nunca teve preconceito com relação a nenhum estilo e que músicas devem ser classificadas entre ruins e boas, independentemente de serem funk, sertanejo, bossa ou jazz. “Você reconhece a grande canção em qualquer gênero musical. Em todos eles existem coisas de qualidade ou não, interessantes ou não. Essa discriminação com o funk é meio um senso comum, impensado. Ah, é funk, então não gosto, não presta. É sertanejo, também não presta. Isso é uma grande bobagem”, salienta.

A primeira incursão do músico pelo universo funkeiro foi em 1997, quando regravou Conquista, de Claudinho e Buchecha (‘‘Sabe, thurururu, estou louco pra te ver. Oh yes!’’). Celso vê com bons olhos e acha muito positivo artistas da chamada MPB, como o próprio Roberto, enveredarem pelo ritmo. “Fiz uma versão do meu jeito, assim como muita gente também está fazendo. É muito saudável e acho que não tem nada de estranho nisso. Roberto Carlos é um cara de extremo bom gosto; ele reconhece as grandes canções, sabe tudo de música e acho muito legal ele ter composto um funk. Assim que eu ouvir um funk que me surpreenda e me encante novamente, que eu reconheça como grande canção, pode ter a certeza de que vou gravar”, assegura.

Créditos: Divirta-se

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