Banido dos bailes em favelas, o funk é traduzido em imagens por formandos de Desenho Industrial da PUC-Rio

22/11/2009 | comentários: 0
Julia Haiad e André Castro

Equanto os bailes funk são proibidos pela polícia no seu berço, as favelas, a elite volta a se debruçar sobre o ritmo como objeto de estudo. O batidão agora é analisado graficamente por Julia Haiad e André Castro, recém-formados em Desenho Industrial na PUC-Rio. Os dois produziram o livro "Funk - Que batida é essa?" como projeto final de curso. A editora Aeroplano comprou a ideia, e a dupla corre atrás de patrocínio para poder distribuir o livro em escala comercial, enquanto dá palestras sobre a obra na PUC e na UFRJ.

- É um livro de arte sobre funk para o público AB, que paga R$ 100 para entrar nas boates da Zona Sul e, às 4h da manhã, está dançando "Créu"- define Julia. - Mesmo fechando suas portas e janelas, a elite recebe a mensagem da favela quase intacta.

Na teoria, Julia e André beberam muito na fonte do sociólogo Hermano Viana, pioneiro no estudo acadêmico do funk, para entender os 40 anos do estilo (e da sua pré-história) no Brasil. Tudo é contado na apresentação da doutora em História Martha Abreu, no texto inédito da antropóloga e estudiosa do tema Adriana Facina e nas entrevistas com o DJ Sany Pitbull, a atriz Regina Casé e a MC Deyse Tigrona - que pediu aos autores para substituir a alcunha felina pelo "sobrenome" Loura.

Na prática, os estudantes foram aos bailes do Cantagalo e do Castelo das Pedras para sentir o clima e fotografar. O resultado é um ensaio gráfico de 15 páginas com ilustrações e intervenções artísticas sobre as fotos.

- Para ilustrar o funk popular, escolhemos o estêncil, ligado à arte de rua e ao grafite. A temática sexual da música foi retratada com a monotipia, que gera borrões, lembrando os movimentos da dança. Já para o funk associado à violência e ao tráfico usamos a técnica do carimbo, mais agressiva - explica André, que, se antes não curtia muito funk, hoje tem uma porção de CDs do ritmo no carro.

Julia já era a típica funkeira da Zona Sul e arrastou o parceiro de trabalho para festas que tocavam funk na Pista 3 e no Circo Voador. Uma delas, a gravação do DVD do MC Marcinho no Circo, aconteceu no Dia dos Namorados, e a namorada de André ficou brava. Mas os dois são apenas colegas de trabalho e amigos dos tempos de Colégio Santo Inácio.

- O André só ouvia MPB - entrega Julia. - O Castelão tem até área VIP, e muitas patricinhas da Zona Sul vão de van para lá. Já o baile do Cantagalo é mais raiz, e a comunidade predomina.

Os dois não tiveram a oportunidade de conhecer o extinto baile do Santa Marta, morro ocupado pela PM desde o fim de 2008, mas, coincidentemente, a gráfica nordestina que orçou a impressão do livro leva o mesmo nome da favela carioca. Contrários à repressão que, no mês passado, proibiu uma roda de funk ao pé do morro, Julia e André esperam não ter que sair do Rio para ouvir o batidão. Sexta, estarão de novo no Circo para dançar ao som de MC Marcinho e cia. na festa Eu Amo Baile Funk.

Créditos Texto: Jornal Extra

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