Cadê o amor?

15:12

Canções românticas desaparecem das paradas de sucessos da música brasileira. Será que o amor saiu de moda?

"Quem não viveu um grande amor ainda vai viver e vai se identificar com alguma música dessas. É por isso que elas duram tanto tempo. São como os grandes amores, que não acabam. As pessoas estão carentes de novas músicas românticas. Quando vão procurar uma playlist, vão logo em quê? No Melim, no Luan Santana, no Lulu...Porque sabem que eles cantam o amor e cantam bem, né?" MC Marcinho 

 Se quiser falar de amor?

"Fale com o Marcinho. Ou então chama pro feat!"
Um cara que entende de hits de amor "não-perecíveis" é MC Marcinho. Quem atualiza o bordão clássico do funk é o próprio cantor. A frase surgiu no hit "Glamurosa", lançado em 2002. Naquela época, com 25 anos, ele já era chamado de "Príncipe do Funk".
"Eu já vinha de muitas músicas românticas estouradas e pensei: 'Pô, eu sou um especialista no assunto, né?' Então, se quiser falar de amor, é só falar comigo!"
Quase 20 anos depois, Marcinho segue firme no estilo romântico, agora apostando em novos sons, como mistura do funk com o trap e com o reggaeton. MC Marcinho não acha que o amor, como tema de música, tenha saído de moda. Na opinião dele, a "molecada" —do funk, principalmente— é mais ousada, mas não deixa de falar de amor quando, por exemplo, canta sobre sexo.
"As letras ficaram um pouco mais pesadas, né?", comenta Marcinho. "Aquela essência do amor puro, de chamar de 'meu docinho, minha gatinha', não tem mais. Hoje é 'potranca', 'popozuda', 'vou te pegar daqui e dali'. Acho que às vezes passa um pouco do ponto."

O rótulo 

Mas tem outro ponto, além da dificuldade do mercado, que incomoda quase todos os artistas que cantam sobre o amor: justamente o rótulo de cantor romântico.
"A ideia do cantor romântico é que ela é muito redutora e tem uma conotação de preconceito. Mas eu também sou um cantor e um compositor que canta sobre o amor e fico feliz de ser lembrado assim."
Mas há também quem tire proveito do tal rótulo de cantor romântico. MC Marcinho conta que, para ele, o carimbo acabou servindo como uma arma para lutar contra o preconceito.
"Ajudou mais do que atrapalhou. O fato de eu ser um MC romântico abriu muitas portas para mim. Fiz show em praças em que o funk não entrava, porque o preconceito era grande. Como eu falava de amor, sofri menos que meus parceiros." MC Marcinho 

O filósofo, sociólogo e professor de comunicação Márcio Tavares D'Amaral explica a quebra de expectativa que acontece quando um artista romântico resolve cantar sobre outro assunto.
"A gente pode pensar no cantor romântico —ou em todos esses que levam rótulos— como um personagem feito para ser consumido. A questão é o sujeito gostar ou não de ser consumido dessa forma. O nosso desejo de consumo é aquele e, de repente, ele 'trai a sua confiança' fazendo algo diferente."

Sinal dos tempos?

Para tentar entender o "sumiço" dos novos hits de amor vale a pena também analisar o contexto. E aí o panorama não é nem um pouco amoroso. Márcio Tavares D'Amaral vê uma possível relação entre o desaparecimento do romantismo e uma transformação da sociedade. "Nos últimos 20 anos, estamos observando uma desestruturação da ideia de um sujeito que seja um 'eu cheio' diante de um outro sujeito que também seja. A relação amorosa entre duas pessoas é essencialmente uma relação de comunicação." Outro ponto importante do contexto atual que precisa ser levado em conta é o momento de dor e sofrimento pelo qual muitas pessoas estão passando por conta da pandemia da covid-19. MC Marcinho é do time dos que pensam que, em tempos difíceis como estes, falar de amor é ainda mais importante e revolucionário.
É difícil para caramba. Mas, para sair da dor, somente com amor. Eu sou da tese de que devemos sempre amar e essa pandemia me ensinou a amar ainda mais.
No campo da sociologia e da filosofia, Márcio Tavares D'Amaral destaca o "papel fundamental" que as músicas de amor —e quem as canta— têm na nossa cultura.
"É uma tarefa de resgate dos valores de uma civilização que sempre se quis amorosa, relacionada com o outro. Da ideia de que existe o outro e eu preciso dele. É importante que se cante sobre essa essência da relação amorosa, porque se todo mundo silenciar, vence o ódio, vencem as polarizações e o desamor."

Créditos:
SPLASH UOL - Arte: Carol Malavolta; Edição: Débora Miranda, Liv Brandão e Osmar Portilho; Reportagem: Breno Boechat; 

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