Dupla Cidinho e Doca retoma parceria e grava disco para celebrar 20 anos de carreira

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Após sete anos trilhando caminhos independentes, Cidinho, de 37 anos, e Doca, de 38, voltam a andar tranquilamente, como uma dupla, na favela onde nasceram e de onde não pretendem sair. Completando duas décadas de carreira, os funkeiros da Cidade de Deus já estão cheios de planos: em breve sai do forno um EP com duas músicas novas (entre elas, “Trem do amor”) e regravações de sucessos como “Rap da felicidade”, de 1994, que explanava para o asfalto as mazelas da comunidade e hoje, aos olhos deles, ganha nova leitura.

— Tudo que foi profetizado na música aconteceu. “O povo tem a força, só precisa descobrir”. Olha o povo na rua, nas manifestações. No rolezinho, o pessoal canta o “Rap da felicidade” — conta Doca, que está em busca de um cineasta para contar a história do baile funk num filme.
Apesar de não se oporem ao estilo mais pop de outros funkeiros estourados nas rádios como Anitta, Valesca Popozuda e Naldo (contemporâneo da dupla, desde a época com a parceria com Lula), eles dizem que não vão mudar.

— As pessoas sempre esperam uma mensagem da nossa música — conta Doca, o mais falante da dupla: — Cada um tem o direito de fazer o que quiser. Mas nós somos MCs, esse é um título que ninguém nunca vai tirar da gente, por dinheiro nenhum. Somos povão, da comunidade.
"As pessoas sempre esperam uma mensagem da nossa música" Doca
São mesmo. Durante a entrevista, cumprimentavam os vizinhos e davam autógrafos com a mesma naturalidade. E, 20 anos depois, não deixam de falar dos problemas que atingem os moradores.
— A UPP abriu a porta para que os gringos e os ricos entrassem aqui com facilidade. Para mim, para a tia que mora ali, não mudou em nada. Ainda tem bala perdida, ainda tem atropelamento por perseguição, a UPA não funciona — reclama Cidinho, contando que a diversão na comunidade se restringe ao baile funk: — Tinha que ter uma biblioteca, uma lona cultural. Nunca teve um parque aqui dentro.

Seguindo à risca o lema “Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui”, Doca pensa em ir além da música e se candidatar a deputado estadual:
— Todo mundo fala mal da política, que lá só tem ladrão. Mas ela é uma canal em que você pode ajudar outras pessoas. Tudo que a gente fez foi em prol da comunidade.
Mas falar da realidade da Cidade de Deus já levou os funkeiros até a ter que dar esclarecimento na delegacia, pelas referências explícitas à violência no “Rap das armas”, que ganhou projeção mundial com “Tropa de elite”.
— Isso foi em 2005. Disse: “Se tirarem o sangue da minha porta, a droga da minha rua, vou falar de amor, vou falar de paz. Enquanto isso, falo do que vejo” — lembra Doca, que é evangélico e acompanha de perto as obras sociais da sua igreja: — Muitos amigos meus que eram bandidos ou viciados, hoje você não reconhece.

"Tem bala perdida, atropelamento por perseguição, a UPA não funciona" Cidinho 

Os problemas causados pelo vício, aliás, Cidinho conheceu bem de perto. Há três anos, ele está livre do crack.
— Usei por um tempo e não posso dizer que me orgulho disso. Mas o fundo do poço foi um dos locais que mais me ensinaram. Perdi tudo que tinha. Como tinha dinheiro para pagar, ficava fumando, fumando. Saí dessa com ajuda de Deus, dos meus amigos, da minha companheira. Hoje estou recuperado, titia — brinca.

Créditos: Giselle de Almeida - Jornal Extra 

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