Para além dos bailes, funk se reinventa e sofistica

13/12/2011 | comentários: 0

Gênero aparece no novo CD de Gal Costa, no violão de Edu Krieger e em projetos inscritos em edital do estado

RIO - Como o samba, o funk carioca nem está agonizando nem ameaçado de morrer. A vitalidade se mostra em várias frentes. De um lado, artistas nascidos e formados longe das favelas e dos subúrbios, criados em gêneros como o choro e a MPB, procuram beber do "som de preto de favelado". É o caso de Gal Costa com o "Miami maculelê", de Caetano Veloso, gravado no recém-lançado CD da cantora, "Recanto". E também do compositor Edu Krieger, que prepara seu próximo CD baseado na batida do funk, no violão de sete cordas. Em outra frente, os projetos inscritos no Edital Para Criação Artística do Funk — lançado pela Secretaria de Cultura do estado do Rio — mostram que o gênero quer se expandir dos bailes para a rua, da música para o vídeo, do presente para a memória e para a investigação do futuro. Também dos bailes, brotam o tempo todo novidades como o já famoso passinho do menor da favela (videoarte, cultura digital e dança no mesmo pacote) e mesmo números de humor.— São esquetes que unem música e fala, flertando com a revista. São críticas de costumes, que brincam com os tipos do baile — explica Marcus Faustini, que com Ecio Salles idealizou e coordenou o edital.

O cruzamento de linguagens do funk é uma das conclusões a que se chega quando se observa a lista de 108 projetos inscritos no edital, cujo resultado sai no início de 2012.

A partir dos projetos e de observações que fizemos nas caravanas pelo estado (para divulgar o edital), vimos que o funk hoje vai muito além do universo entendido como tradicional, do baile, do CD — conta a secretária de Cultura, Adriana Rattes. — Entre os projetos inscritos, há exposições de fotos, criação de sites, publicação de livros, propostas de mistura de dança, música e vídeo... A linguagem está se sofisticando.

Campo de ação estético

Faustini volta à origem do funk para observar o momento que o gênero atravessa agora:

O funk sempre teve uma relação forte com o território. O criador do funk circula pela cidade e a canta. É a "Estrada da Posse", "O endereço dos bailes", o funk que cita os bailes nos quais o menino foi atrás da menina... Era a resistência contra a invisibilidade do território popular. Hoje, em vez de só cantar o território, ele quer circular pelo território. Como o projeto performático que recebemos de pôr um carro tocando funk pela cidade e observando as reações. É usar a cidade como campo de ação estético. Agora não é mais resistência. Nego tá abusado. Tem um projeto da Baixada de flashmob de funk. O cara conhece o conceito e quer puxar para o funk.

Ecio Salles interpreta:

É a geração ProUni, a galera da favela que entrou na faculdade, se intelectualizou e leva isso para o funk.

A lista de projetos inclui a criação de um modelo alternativo de negócio, em cooperativa de artistas, que tire a exploração comercial do funk das mãos dos poucos donos de equipes de som. Há documentários sobre personagens históricos (do Bonde do Tigrão ao mítico MC Magalhães, vendedor de doces que compôs o "Rap do trabalhador"). Há propostas de criação de blogs sobre a memória do funk e a publicação de livros como "101 funks que você tem que ouvir antes de morrer".

A expansão do funk foi bater no CD de Gal Costa via Caetano e Moreno Veloso — produtores de "Recanto". Num caminho nada ortodoxo, com percussionistas de Santo Amaro e programações eletrônicas do "forasteiro" Kassin. E o gênero já frequenta há algum tempo o choro pelo pandeiro de Sergio Krakowski — no grupo Tira Poeira e no projeto Choro Funk, nascido do encontro dele com o DJ Sanny Pitbul.

Enquanto os bailes rolavam a quilômetros de sua casa, Edu Krieger pesquisava, no violão e no atabaque, a rítmica da batida funk do tamborzão.

Vi que hoje ele se identifica muito mais com o Fela Kuti do que com o miami bass de origem — diz o músico. — Ambos têm a coisa dos tambores tradicionais transpostos para a linguagem do pop.

Vinicius e Lenine como inspiração

Na pesquisa para seu novo CD, Krieger ouviu de Cidinho e Doca a Gaiola das Popozudas. Dali, extraiu o ritmo no qual se baseiam suas novas canções — adicionando seu estilo poético, harmônico, melódico. "Tudo aquilo que toca", por exemplo, cita as "cornetas" do funk (sopros sampleados) nas cordas graves do violão.

A simplicidade sem concessões também está em faixas como "Saravaibe" (nome provisório do CD, previsto para 2012) e "Terezinho". "Bossa funk" é a mais ilustrativa, com versos como "Tom Jobim com tamborzão/ Tamborzão com Tom Jobim/ A bênção João Gilberto, Monsieur Limá/ Vinicius de Moraes e Bonde do Tigrão." Num certo momento, a harmonia descendente cita um caminho típico da bossa.

As inspirações para o projeto, Krieger conta, são várias.

João Gilberto conseguiu levar para o violão a síncope do samba — lembra Edu. — Caetano comentou que esse trabalho o remetia ao que Moraes Moreira fez com o violão e a percussão baiana. Lenine é outro cara que tem no violão as alfaias do maracatu, em meio ao soul.

Plinio Profeta produz o CD, que terá o violino de Nicolas Krassik e o pandeiro de Krakowski.

Mais do que a riqueza rítmica, Krieger vê uma importância cultural no funk, de sustentar uma tradição:

Ele é importante quando o povo brasileiro está perdendo a relação com sua raiz afro, sua ancestralidade. Com todo o respeito que tenho pelos evangélicos, é triste ver um negro da periferia dizendo que o funk está vinculado ao demônio. Por isso, me emociona ver o tamborzão suplantando o miami bass.

Sem agonia, longe de morrer, portanto.

Créditos: Leonardo Lichote - Foto: Gustavo Pelizzon O Globo

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