Os 40 anos do batidão funk na Zona Norte

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Quando o "Rap do Pirão," de D´Eddy, venceu um dos primeiros festivais de funk, no início dos anos 90, o funk nacional se consagrou no cenário musical. Os versos "O alô Pirão / Alô, alô Boa Vistão / Vem pro baile meu amigo / Vem com amor no coração", expressavam o que se sentia ao ouvir o som carregado dos baixos - o chamado batidão - e inauguraram a era dos raps.

Quarenta anos depois, o funk, que ao longos dos anos foi quebrando gradativamente as barreiras artísticas, econômicas e sociais, ganhou uma homenagem em formato de peça-baile, em cartaz no Teatro Miguel Falabella, que conta como ecoaram os primeiros gritos nas pistas: "Liberta DJ!".
- O "Rap do Pirão" inaugurou a versão brasileira do funk "Miami bass", com uma pegada brasileira no modo de cantar - explica o autor do livro "Batidão - Uma história do funk", o jornalista Silvio Essinger.

O gênero chegou ao Rio nos anos 70, no extinto Canecão, comandado pelo lendário disc-jockey Big Boy. Da Zona Sul, o soul seguiu para o subúrbio e tomou conta da região. Surgiram dezenas de equipes de Som como Célula Negra, Black Power, Revolução da Mente e Soul Grand Prix.

- A peça começa exatamente no Baile da Pesada, que acontecia no Canecão, e mostra a chegada das equipes de sons nos bairros do subúrbio - conta um dos autores da peça "Funk Brasil - 40 anos de baile", João Bernardo Caldeira.

E é aí que surgiram os DJs Marlboro, Rômulo Costa, Mister Funky Santos, Furacão 2000, D' Eddy e Grandmaster Raphael, bem como os primeiros hits - "Melô da mulher feia", "Rap do Pirão" e "Feira de Acari".

Em 1989, o DJ Marlboro foi morar na casa dos avós paternos no Méier, e montou um estúdio no Lins. Por ali passaram sucessos como "Me leva", do Latino; e "Rap das armas", dos MCs Cidinho e Doca.

- O estúdio no Lins está alugado desde 1997, mas ali pude lançar funks que marcaram época. A minha contribuição para a história do funk aconteceu quando ganhei de presente uma bateria do Hermano Vianna. Na época, ele (Hermano) escrevia uma tese sobre o funk, e seu orientador chegou a condená-lo por interferir na história do gênero - explica Marlboro, que prepara uma turnê para setembro, nos Estados Unidos.

No auge do funk, nos anos 90, as pistas ficaram lotadas ao longo de vários fins de semana em clubes e quadras de escolas de samba de bairros da Zona Norte.

- Era algo proibido lá em casa ir ao baile funk, mas a aventura era boa - lembra o ator Dérik Machado, que interpreta o cantor Bochecha.

O espetáculo segue a mesma cronologia do livro de Essinger e promete não deixar ninguém parado.

- Eu nunca tinha tratado um espetáculo como um baile. Mas li o texto e achei um ponto interessante, que é um chamado para o baile nos anos 70: "Tá feliz? Dance; Tá triste? Dance; Não tem nada para fazer? Dance". Na peça, os atores não param de dançar - conta a diretora Joana Lebreiro, que é casada com o filho do DJ Big Boy.

Como, no final dos anos 90, o tráfico passou a ter sua imagem vinculada aos bailes funk, eles diminuíram sensivelmente no últimos anos. Segundo a Coordenadoria de Polícia Pacificadora, da Polícia Militar, não existe proibição quanto a nenhum gênero musical, desde que não façam apologia ao crime.

O charme resiste

A diferença entre o charme e o funk já foi tema de um hit de MC Dollores e MC Marquinhos muito tocado nos bailes dos anos 90. Muito antes de o "Rap da diferença" existir, nos anos 80, o DJ Corello virou lenda por criar o fenômeno dos bailes black. Nas pistas, Marco Aurélio Ferreira (o nome por trás do DJ) criou o charme - uma mistura com base na urban R&B que flertava com o jazz e o reggae, e que , mais recentemente, passou a cortejar o hip hop.

Corello não só criou o estilo que anos mais tarde pegaria carona com o sucesso do funk. Ele o mantém vivo até hoje tocando aos domingos na quadra do Império Serrano.

- O charme sempre esteve presente nos guetos, e nunca morreu como segmento dançante - diz Corello.

O DJ conta que os bairros de Oswaldo Cruz, Madureira, Rocha Miranda e Marechal Hermes foram os primeiros a concentrar o maior número de charmeiros por metro quadrado do Rio.

- O charme teve seu início no Méier, exatamente no Clube Mackenzie, em março de 1980. De lá para cá, foi quebrando resistências. Naquela época, ganhou mais visibilidade com a ajuda do Marlboro, do Marcão e da Áurea, que faziam programas na rádio tropical e abraçaram a causa. A partir de 1984, com a criação da Só-Mix disco Club, já dividia o interesse dos amantes da black music do subúrbio com o recém-criado Funky Carioca - lembra.

Créditos: Yahoo - Por Mariana Müller (mariana.samor@oglobo.com.br) | Agência O Globo - Foto: Rio Show

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1 comentários

  1. ESSA PEÇA TEM QUE VIM PARA O ESPIRITO SANTO, É UMA AULA DA HISTÓRIA DA MUSICA NO Brasil. O livro que serve de base para a peça e sensacional, comprei até dois exemplares, se a peça for pelo menos 5 % do livro já será de mais. Por favor Incluam o Espirito Santo na turnê da peça.

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