MCs comentam por que funk incomoda tanto.

19:00

Vira e mexe, argumentos de que o funk brasileiro se reduz a "música de putaria" vêm à tona. Na última semana, quem puxou o bonde da discussão foi o produtor musical Rick Bonadio, célebre principalmente por ter produzido os Mamonas Assassinas. Comentando a cerimônia do Grammy, Bonadio criticou a comoção dos brasileiros no Twitter depois que um remix de "WAP", do DJ Pedro Sampaio, foi ouvido por alguns segundos durante a apresentação de Cardi B com Meghan the Stallion. Em sua conta na rede social, o produtor musical tuitou (e depois apagou, mas os prints são eternos)

Como é de praxe na rede, logo a treta estava instaurada. Pedro Sampaio respondeu prontamente. Artistas do funk e de outros gêneros musicais também rebateram o produtor: Anitta, Luiza Sonza, Valesca, Ludmilla, Jão, Lucas Silveira, Lexa, Mc Kevinho e vários outros engrossaram o coro contra a fala de Bonadio.

'Só os favelados são humilhados' Se o incômodo com o funk vem do fato de as letras serem explícitas, Arnaldo Antunes compôs "Ela goza com a mão/ Não precisa do seu pau" ("Essa mulher", 2001). Por que não se sabe de críticas em massa ao artista? O início de uma resposta vem de uma das desbravadoras da "putaria no funk", Tati Quebra Barraco, que crava: "Só os favelados são humilhados". 



Antes de ser Tati Quebra Barraco, Tatiana dos Santos era cozinheira em uma creche na comunidade carioca em que morava, a Cidade de Deus. A incursão no funk se deu por acaso, na piada, depois de três meses sem "quebrar o barraco" — que significa transar, como ela explica ao TAB durante uma conversa sem meias palavras. 

Dos versinhos rimados em mesa de bar, Tati foi subindo nos palcos dos bailes da CDD porque "o pessoal foi achando engraçado", e quando viu, estava tocando nas rádios e sendo procurada para shows. 

"Foi acontecendo, eu tinha um emprego legal, que gostava, mas Deus pôs essa oportunidade no meu caminho e fui ver se colava." Colou.

O funk a levou a vários países, e um dos episódios que ela descreve como o mais marcante foi quando se apresentou como única brasileira em um evento exclusivo para a imprensa, no Palácio de Berlim. A artista achou a plateia muito sisuda, mas o tradutor garantiu que os jornalistas estavam gostando e que pediram bis. 

"Acontece que eles não estavam entendendo nada que eu dizia"

Quando questionada se tem memória do que cantou na ocasião, a funkeira responde prontamente

"Ah, meu repertório: 'Dako é bom', 'Fama de putona', 'Quebra o meu barraco', todas essas'"

Para Tati — que tem feito sucesso no Instagram dando dicas de vida para os seguidores —, tentativas de reduzir o funk à vulgaridade sempre existiram.

"A gente que vem da comunidade é que sabe da nossa realidade, sempre tem alguém que não é do funk pra dizer que a gente tem que melhorar. Na minha época, nem tinha isso de ser empoderada. Acho que quebrei tabus e abri porta pra que mais gente ganhasse a vida cantando putaria".

Aos críticos, ela responde com um de seus bordões mais desdobrados em memes e figurinhas de WhatsApp.

"Quem gostou, bate palma. Quem não gostou, paciência."

P*taria que transforma vidas 

As palavras cantadas do outro lado da linha poderiam fazer enrubescer os ouvintes mais pudicos e distantes do funk carioca: "O seu corpo treme todo/ Fica toda arrepiada/ Ainda nem tiramos a roupa e já tá toda molhada". O timbre inconfundível de MC Serginho, que estourou em 2002 com o hit "Vai, Serginho!" não surpreende quem muito já engrossou esse coro, alternado com medleys de "Vai, Lacraia", em menção à dupla do cantor. A icônica dançarina travesti morreu em 2011 — e a voz do MC se embarga ao dizer que tem certeza de que a Lacraia olha por ele do plano superior. 


Morador "desde sempre e para sempre" da favela do Jacarezinho, como faz questão de frisar, Serginho hoje é locutor da Rádio Roquette Pinto, do governo do Estado do Rio. Também faz shows de "stand up funk" e atua como DJ, mas destaca que está parado há um ano por conta da pandemia. No stand up, canta e conta as histórias das músicas como coisas que acontecem na vida de todo mundo.

 "Sempre gostei de sacanagem, de contar sacanagem", diz ele, enquanto explica os traços documentais de "Vai Serginho", inspirada em um episódio em que "fez amor" com sua então namorada.

 "No meio do momento, no carro mesmo", a moça repetia as palavras que se tornariam um dos refrões mais famosos dos anos 2000.

Segundo o artista, quando se trata de funk, as pessoas tendem a "ver putaria até onde não tem". Foi o que fizeram, ele conta, com outro de seus hits, "Eguinha Pocotó" — escrita a partir de uma brincadeira com a filha, na época com 2 anos. 

O MC qualifica as críticas ao funk como hipócritas, moralistas e desmerecedoras do potencial ressocializador do gênero musical, que movimenta a economia das comunidades. 

"Onde tem um baile funk, tem uma tiazinha vendendo cachorro-quente, um cara vendendo água, cerveja. Deviam criticar é a política que deixa a periferia à míngua, não a putaria, que muda a vida de quem não tem oportunidade."

"Quando é na Zona Sul é diferente" 

No auge do seu sucesso, em 2006, Pedro Jorge Lopes fez uma temporada de shows em Nova Jérsei, nos Estados Unidos. Ele estava com várias outras apresentações marcadas no exterior, mas elas tiveram que ser canceladas abruptamente em 24 de maio, quando a polícia bateu em sua porta em Niterói (RJ), e logo a notícia se espalhou: 


"Polícia prende MC Colibri". O cantor passou seis meses preso, foi liberado e o processo acabou sendo arquivado por falta de provas. O MC veio do samba e tocou com grandes ícones do gênero, como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz. Foi também puxador em agremiações como Império Serrano, Portela e a Beija-Flor, onde ganhou seu apelido

"Meu nome artístico era Pedrinho da Portela, mas não dava pra usar quando fui puxar samba ao lado do Neguinho da Beija-Flor. Aí me deram esse apelido, Pedrinho Colibri".

Era no samba, inclusive, que o MC esperava seguir carreira musical. Mas no início dos anos 2000, o funk era mais promissor, a menina dos olhos das gravadoras. Depois de um convite de MC Marcinho, o sucesso, os contratos e agenda lotadíssima vieram com os versos da música "Quer bolete?". 

Num momento em que fazia sete shows por noite, Colibri recorda de ter desmaiado de fadiga no palco e acordado em uma ambulância, nos braços de ninguém menos que o finado Mr. Catra, em um show no Rio das Pedras, meca dos bailes da época. 

"Foi tudo rápido. Morava no Acari, deitei pobre e acordei rico, com 'Bolete' no topo das paradas, tocando no exterior. Não esperava isso, foi uma loucura. Fiquei chateado com o empresário no dia do desmaio, porque ele queria que eu voltasse pro palco, sem se preocupar com a minha saúde."

Para o cantor, que hoje vive em Belo Horizonte — onde está quarentenado com a esposa e os filhos —, sua história é uma das tantas que ilustra "a covardia, o preconceito e a discriminação com a favela e suas manifestações" e questiona por que, ao invés de só criticar, os detratores do gênero musical não fazem projetos para incentivar os jovens na música erudita, já que o funk incomoda tanto. 

Colibri diz que, particularmente, prefere a juventude fazendo funk do que pegando em fuzil.

 "Tem muito preconceito, racismo, tudo junto aí. Quando é na Zona Sul, é diferente"

Créditos: Julia Pessôa - TAB UOL 


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