Funk e corrido: a criminalização da cultura dos de baixo

03/09/2010 | comentários: 0

São Paulo, Brasil. Geograficamente distantes, mas com realidades sociais parecidas, as periferias mexicanas e brasileiras são rotas de passagem para o tráfico internacional e também abrigam o varejo do comércio de drogas ilícitas. Com isso, suas populações vivem em meio ao fogo cruzado e são vítimas da chamada guerra às drogas.

Os corridistas, no México, e os MCs (que fazem as letras de funk e rap), no Brasil, retratam o cotidiano dessa realidade que as páginas dos grandes jornais insistem em encobrir. Músicas de grande sucesso entre os jovens das periferias, os ritmos são perseguidos em seus países. Parte da cultura dos de baixo, estabelecem um contraponto perigoso ao discurso oficial sobre os episódios da guerra às drogas.

A mídia e o poder público criminalizam o funk”, conta a antropóloga Adriana Facina, que apoia a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, a ApaFunk. Presidida pelo Mc Leonardo.

Já sobre o título de “narcocorridos”, dado aos corridos que tratam sobre a questão do tráfico, Andres Contreras, “El Juglar de los Caminos”, corridista mexicano famoso por acompanhar e narrar feitos dos zapatistas e de outros movimentos sociais do país, comenta: “não duvido que tenha sido batizado assim pelas gravadoras. Fazem essa distinção com o objetivo de vender mais”.

A mídia criminaliza

Depois de uma série de episódios violentos protagonizados nas praias da zona sul do Rio por jovens de periferia, em 1992, o funk levou a pior. As brigas entre grupos de diferentes favelas se tornaram brigas de funkeiros, aos olhos da polícia e da mídia, e os bailes passaram progressivamente a ser criminalizados.

Quanto aos “narcocorridistas”, também são acusados pela grande mídia de gerar violência. “A mídia difunde muito essa versão como uma maneira de dissimular a verdade, que é que a violência e tudo isso é gerada pelo desemprego, a corrupção do governo e a falta de oportunidades”, diz Andres Contreras.

As leis condenam

Além da ocupação e militarização de territórios e das campanhas midiáticas, outro mecanismo também é usado para controlar as ações e limitar a voz dos de baixo: as leis. No Brasil, no ano 2000, foi sancionada no estado do Rio de Janeiro uma lei que regulamentaria os bailes funks, mas na verdade os inviabilizava. Ela determinou que qualquer baile funk deveria ser acompanhado pela polícia militar; tornou obrigatórios os detectores de metais e proibiu a execução de músicas de apologia ao crime.

Em 2008, a lei foi revogada e substituída por outra que acrescentou as festas rave na regulamentação. Outra exigência foi adicionada: qualquer baile funk ou festa rave deveria ter contrato com empresa de segurança particular autorizada pela Polícia Federal.

Essa lei segregou ainda mais o movimento”, diz Mc Leonardo. Os bailes funk foram ainda mais marginalizados.

A lei foi revogada em 2009 e o funk foi reconhecido oficialmente como manifestação cultural. Mas nesse mesmo ano o estado do Rio de Janeiro adotou uma política de ocupação e militarização das favelas que atingiu os bailes funk. “Uma das medidas adotadas quando a polícia ocupa uma comunidade é proibir o baile funk. Mesmo com a lei ao seu favor, o funk continua criminalizado”, protesta Adriana Facina.

No México o cenário não é muito diferente, grande parte de seu território está ocupado por bases militares. O poder público e as associações de radialistas tentam proibir as composições que tratam desse universo, os narcocorridos.

Alguns estados como Sinaloa o proíbem”, conta Andres Contreras. Nos últimos anos, cerca de 70 estações de rádio foram multadas ou fechadas pelo governo por reproduzir os “corridos proibidos”.

Detido mais de 50 vezes por cantar corridos politizados (o que evidencia a falta de liberdade no México), Contreras concluí: “A proibição do narcocorrido é uma violação à liberdade de expressão, e não é por eliminá-lo que os narcotraficantes vão desaparecer”.

Créditos: Rodrigo Vinagre - Tradução: Waldo Lao Fuentes Sánchez - Desinformemonos


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