O prazer de ouvir música

10/06/2009 | comentários: 3
Recentemente, numa viagem de carro, li uma frase de traseira de caminhão que me chamou a atenção sobre como a cultura popular pode ser pedagógica: “Quem julga o que não vê, condena o que não sabe.” Pensei em como essa frase ilustra o preconceito que muitos têm contra o que não é cultuado pela elite, ou que não se enquadra nos padrões da indústria cultural. Volta e meia, discuto com um amigo sobre o funk. Sempre lhe mostro letras de funk bem construídas e ele acaba me respondendo: “As letras podem até ser boas, mas o problema é a música que é muito ruim, não dá prazer em ouvir.” Afinal, o que ou quem define uma música como sendo prazerosa aos ouvidos?

Sim, é lógico que a maioria dos funks, atualmente, fala de sexualidade, quase sempre por um prisma machista. E, infelizmente, muitos funkeiros, seduzidos pelo dinheiro oferecido, fazem e cantam os “proibidões”, cujas letras são apologias a facções criminosas. Entretanto, essa é apenas uma parcela do mundo funk. Não podemos olhar para essa linguagem musical e ver apenas esse lado. É preciso lembrar que existe um outro funk, que fez grande sucesso na década de 90 e hoje tenta se reafirmar.

Em um evento no morro do Estado, em Niterói, numa apresentação dos MC’s Junior e Leonardo, ao vê-los cantando uma de suas novas músicas, me arrepiei dos pés à cabeça. Os garotos, de uns 12 anos, que antes estavam correndo e brincando, ficaram boquiabertos ouvindo a música, hipnotizados com a letra (uma abordagem sobre a infância dos MCs e um recado para um amigo antigo não entrar para o tráfico). Trata-se de uma forma de expressão tão válida quanto os sentimentos que Beethoven registrou em partitura. Não é necessário estudar teoria musical para tocar corações, cantando suas angústias ou alegrias.

Uma música pode causar prazer no ouvinte, não apenas pela sua melodia, mas pela forma como a letra ganhou vida em melodias fortes e ritmadas. Funks podem ser poemas musicados revoltados, galopantes e avassaladores. Quando ouvimos funk em alto e bom som, é como se nossa alma pegasse emprestado a tradução que um intérprete faz do que os corações, inutilmente, gritam. Por isso, respondo a todos os doutores em música: tenho muito prazer em ouvir funk, sim senhor.

Logicamente, o preconceito racial e de classe acompanha a discriminação musical contra o funk. Tentar dizer a pessoas elitistas ou racistas que funk é cultura talvez seja perda de tempo. Ou talvez não. O samba, que assim como o funk tem raízes africanas, antes de ser “descoberto” por intelectuais, era sinônimo de bandidagem, vagabundagem. É bom lembrar que essa era a visão da mesma classe alta que hoje classifica o samba como “alta cultura”.

Entretanto, escrevo para os muitos que se dizem de esquerda, afirmam ter mente aberta, e têm preconceito contra a funk, na maioria das vezes por só conhecer as músicas apelativas. A esses, faço o convite: ouçam bons funks. Uma dica é o site http://www.funkderaiz.com.br/ da amiga Claudia Duarcha, que além de publicar reportagens e entrevistas com funkeiros, disponibiliza várias mp3s antigas e atuais que falam de amor, cotidiano, orgulhos, preconceitos, problemas sociais, sem apelar para abordagens de sexualidade em tom agressivo.

Uma prova de que o funk engajado não morreu é o nascimento da APAFUNK (Associação dos Profissionais e Amigos do Funk) formada por dezenas de MCs e DJs que acreditam nessa luta. A batalha da Associação é para que todos reconheçam o óbvio: o funk é a linguagem da favela. E, atualmente, tem imenso potencial de mobilização, conscientização e transformação social. A organização luta para revogar a lei de autoria do ex-deputado, e atual detento, Álvaro Lins, que proíbe a realização de bailes funk em todo o estado.

Um filme não “é ótimo, magnífico” só porque é francês. E nem uma música é brilhante só porque foi composta há mais de trinta anos. Precisamos deixar o novo encontrar o antigo, o exterior se chocar com o nacional e então, veremos uma grande onda de nova cultura nascer. É óbvio que devemos preservar e incentivar a produção de estilos culturais antigos. Apreciemos a música clássica, mas também dancemos ao som do pancadão, não precisa ser numa favela (óbvio que seria interessante se todos conhecessem uma, até para quebrar outros preconceitos), mas não tenhamos vergonha de gostar desse ritmo.

Descubramos formas de cultura que nunca teríamos tido vontade de conhecer se continuássemos em nossas redomas de soberba intelectual. MC Bob Rum, no Rap do Silva, afirma: “O funk não é modismo, é uma necessidade. É pra calar os gemidos que existem nessa cidade.”

Estou com ele e não abro

* Caio Amorim é estudante de jornalismo na PUC-Rio e editor da revista Vírus Planetário

http://www.virusplanetario.wordpress/
Artigo originalmente publicado na quarta edição da revista Vírus Planetário.

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