Jornal Vozes das Comunidades

17:13

Funk: um grito de socorro que ecoa das favelas cariocas

Com a palavra, MC Leonardo e Adriana Facina


Para MC Leonardo, presidente da APAFUNK, existe muita gente no funk fazendo musica com cunho social. Ele destacara os preconceitos difundidos pela grande mídia e lembra que existem muitas leras que escapam da "Bundalização". São funks de denuncia, que falam da realidade das favelas, mas que não interessam ao mercado.

Qual é a atual situação do funk no Rio de Janeiro e no Brasil? Como se dá a relação entre artistas e o mercado?

MC Leonardo: O funk continua sofrendo muito preconceito. é muito censurado no que diz respeito a sua diversificação cultural. O mercado toma conta do nome funk, mas não divulga a cultura do funk. Hoje o funk não fala nada, não se comunica. Com relação ao mercado, as pessoas são prejudicadas, seus direitos desrespeitados, os contratos são abusivos. Estamos querendo colocar a legalidade no vínculo entre casa de show, empresário e artista, para assegurar o direito de todos. O que costuma acontecer é o artista ficar sempre com o lado mais fraco da corda. Para cantar, o artista acaba assinando qualquer contrato. Isso acontece em todas as favelas.

Muitas vezes o funk foi acusado de ter ligações com o crime organizado.

MC Leonardo: Toda vez que sai uma musica que fala da realidade da favela, que denuncia o que acontece ali, o funk é chamado de criminoso. O que envolve a favela é um câncer chamado tráfico de drogas. Um crime que já existe há muito tempo ali dentro. Essa realidade é muitas vezes cantada, porque o artista só compõe aquilo que vê e o que sente. E isso não pode ser censurado. Se você está sentindo, você tem o direito de falar. Se não puder, é censura!

A quem interessa o funk que, como voce diz, não fala nada com nada?

MC Leonardo: Para as pessoas que hoje detêm o monopólio do funk é muito boa essa "bundalização", essa coisa de não falar nada com nada. Porque assim não vão comprar barulho nenhum com poder nenhum.

Vocês tiveram um encontro no "Circo Voador" no ano passado pensando na criação de uma Associação.

MC Leonardo: Quando a Adriana Facina me encontrou eu tinha feito uma reunião há 15 dias que tinha reunido quase 30 pessoas. Agora só tem uma desse grupo que continuou comigo. As vezes você não consegue convencer seu próprio amigo do funk. Acho que isso acontece dentro das fábricas também. Quando você forma uma associação você tem que justamente saber quem são as pessoas que estão realmente engajadas. E é assim que nós estamos procurando as pessoas que realmente entenderam o nosso propósito. Não para a gente fazer uma associação com um número muito grande de gente e sim formar um grupo com um número suficiente de gente politizada. Nós não queremos baderna. Queremos o caminho legal, construído com muitas reuniões, para, por exemplo, fazermos um estatuto.

Ainda falta muito?

MC Leonardo: Não está faltando mais muita coisa não. Acho que o mais difícil era dizer, pra quem detém o monopólio do funk no Rio, que nós existimos, estamos reunidos e vamos lutar. Acho que esse recado já foi passado. Não só para a imprensa, mas para os movimentos sociais. Queremos passar a seguinte mensagem: "Respeite o funk como Movimento Cultural"

Como você vê a relação da imprensa com o funk?

MC Leonardo: Tem que ser falado para a imprensa que diz que o "Tim Lopes" morreu dentro de um baile funk que isso é mentira. Ele não morreu dentro de um baile funk. A investigação da polícia em nada apontou o funk. A mídia fala que o arrastão em "Copacabana" é culpa do funk, até a briga no "Maracanã" é culpa do funk... Tudo que acontece de ruim no Rio, o funk está envolvido. Porque é uma arte favelada negra. Todo mundo que fala que apóia e gosta do funk é da boca pra fora. Porque apoiar mesmo é se engajar, enfrentar o problema mercadológico, o monopólio, partir para a tomada de direitos do funk... Ninguém entrou ainda com esse propósito, a não ser as pessoas que estão se juntando agora com a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK).

Na sua opinião, qual deveria ser a relação do Estado com a cultura?

MC Leonardo: O meu maior problema com o Estado hoje, com o poder, é que ele impõe cultura e não ajuda a desenvolver. Ele gasta 1 milhão de reais na "Barra da Tijuca" para impor cultura. A cultura tem que ser financiada e desenvolvida. Mas agora o estado proíbe, e faz inclusive leis que possibilitam o funk. Estamos atualmente brigando contra uma lei que entrou em vigor, que diz que o camarada, pra fazer um baile funk no "Rio de Janeiro", tem que avisar 40 dias antes para o batalhão. E esse batalhão tem 72 horas para dizer se pode ou se não pode. Isso inviabiliza. Estamos propondo outra lei, que vê o funk como Movimento Cultural.

O mercado do funk, hoje, como está não interessa?

MC Leonardo: O que a gente não vai aceitar é o mercado da maneira que está. É a "monocultura do funk", voce só escuta um tipo de funk. Eu não estou falando que te que acabar com a sensualidade da musica, até porque aquilo ali também é uma forma de comunicação. O que a gente fala é que não pode existir só aquilo. Existe muita gente trabalhando dentro do funk, fazendo música com cunho social, como um grito de socorro pelo que acontece dentro das comunidades.

Há diálogo com os funkeiros que seguiram uma vertente mais sexual? Eles podem participar da associação?

MC Leonardo: É lógico que eles podem participar. Até porque a grande maioria dos MC's que fazem a musica com apelo sexual tem a musica do social. Mas esta ninguém toca. Como é que eu falo para esse MC mudar, já que está ganhando dinheiro e sustentando a família tocando este tipo de musica? mas eu falo que não pode ser só aquilo, até porque vai ficar todo mundo igual. O funk tem uma divisão cultural dentro dele mesmo muito forte. O "Marcinho" não pode ser comparado com o "Catra". Os dois vendem funk, vivem do funk, compõem funk, mas são duas coisas completamente diferentes. O "Sapão" é completamente diferente do "Bola de Fogo", que é diferente do "Menor do Chapa".

As pessoas são diferentes, só que quando fica todo mundo fazendo uma coisa só fica complicado.

MC Leonardo: O funk surgiu naturalmente e as pessoas tendem a enxergar da sua forma. Como é o "Marlboro" hoje e o "Rômulo Costa", que detêm o mercado. Eles acham que eles são autopromoção, e não pagam quem toca no baile deles, porque estariam fazendo um favor. Esses dias queriam a minha foto para fazer um álbum de figurinhas, e eu não ia ganhar nada. Minha foto ia estar lá, ia ter um poster grandão, e eu devia aceitar porque era autopromoção. Negativo. Eu não quero trabalhar de graça. Eu liguei para todo mundo e falei para não aceitarem. Acabou saindo todo mundo. Só quem ficou de fora do álbum foi meu irmão.

Pelo jeito, a luta da Associação não vai ser nada fácil.

MC Leonardo: Quando você não sabe que é roubado, nunca vai lutar pelo seu direito. dentro do funk é assim, o artista assina qualquer papel e entra para o mercado. Foi vendo todas as coisas assim que eu resolvi "arregaçar as mangas" mesmo, e comecei a lutar de verdade junto com a Adriana. Que pensei em participar das reuniões nas horas vagas. Hoje eu já estou fazendo shows nas horas vagas. E eu não reclamo. Na verdade, desde que eu entrei no mundo funk nunca senti tanto prazer em fazer algo como hoje. Eu sou músico, eu quero um caminho e um lugar legal para poder cantar. O funk é 100% da favela. Ele é produzido, composto, cantado, divulgado, tudo dentro da favela. Todos os funks que você ouvir em qualquer lugar tiveram que tocar primeiro na favela para depois sair no mercado. E a favela não fica com nada.

Fale mais sobre o poder de comunicação do funk.

MC Leonardo: Esse ano eu passei por 20 estados. Você reúne três mil pessoas em uma cidade com 80 mil habitantes. Só o funk tem esse poder de comunicação. O funk explica direitinho os problemas das favelas, melhor do que qualquer repórter, melhor do que qualquer jornal. Este caminho está sendo vetado dentro do próprio movimento. O próprio "Marlboro" virou para mim e disse que não está na de malhar a elite.

Você já estaria satisfeito se você conseguisse atingir a conscientização interna e mostrar para o morador...

MC Leonardo: Se eu estou falando para o morador da favela, eu estou falando para fora do movimento. O morador da favela não é o movimento. Ele é o ouvinte, assim como o camarada lá do sul. Assim como o índio, Só que é para ele que está sendo falado. Eu não componho para fora da favela. As minhas musicas são feitas para o meu vizinho da favela. Mas se o playboy está querendo me ouvir, eu vou lá.

O Brasil não acaba ficando muito "carioca"?

MC Leonardo: Se os ribeirinhos tivessem hoje um movimento social como o funk, o "Brasil" inteiro saberia que o rio "Madeira" corre um sério risco de deixar de existir. Eles teriam uma arma bem maior se tivessem um veículo de comunicação igual ao funk para avisar o que está acontecendo em relação aos 300 cursos de rios, que vão ser mudados em 20 anos no "Brasil".

Dialogar com a comunidade local é fazer com que eles mesmos façam a sua comunicação?

MC Leonardo: Se você chamar 50 pessoas para um churrasco, vão 25. Ainda mais se for para discutir política. Você tem que usar a arte para politizar, quando a arte te der chance de fazer isso. Hoje o funk é nacional. Emprega 10 mil pessoas diretamente. Então não pode dizer que ele é regional, nem que ele é só para isso. O funk era para ser usado para tudo. Era para termos o "rap da Dengue", o "Rap do Caveirão", o "Rap do PAC", o "Rap do PAN". É para isso que a gente está lutando. Se está todo mundo usando o funk como modismo, que use. Eu estou usando como comunicação.

Para Adriana Facina, o funk é a linguagem da favela.

As pessoas que freqüentam os bailes também estão participando da associação?

Adriana Facina: Sim, estão participando. As pessoas que freqüentam ou que são fãs. Porque fã guarda a memória do movimento. Isso é muito importante. O funk é movimento cultural muito forte, que veio para ficar. Mas ele não tem uma tradição constituída como o samba. Até por conta dessa coisa de ser refém do mercado. Então o fã é a memória do movimento e a participação dessas pessoas é muito importante. Também as lideranças comunitárias das favelas.

Por que o funk tem tanta penetração nas favelas cariocas?

Adriana Facina: Porque o funk hoje é uma linguagem universal das favelas cariocas. Com o funk você entra em qualquer lugar. Então é muito importante para as lideranças comunitárias, para aqueles que estão à frente dos movimentos sociais, se comunicarem com essa linguagem, que tem acesso direto aos jovens. Muito mais do que a escola consegue. Muito mais até mesmo que a televisão. A gente fala da TV, do vídeo game, o funk supera tudo isso nas favelas. Ele tem um poder de comunicação muito mais forte. Então é por isso que essas pessoas se agregam e se juntam a associação.

Créditos: Gláucia Marinho, Jéssica Santos, Katarine Flor, Gizele Martins e Sheila Jacob. Fotos: Eduardo Alves. Contato Jornal: (21) 2220-5618


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1 comentários

  1. Salve a todos do Funk social. Sou Rapper Fiell do morro Santa Marta. Quando o assunto é morador de favela, junto já vem o kit (PRECONCEITO, E ESTERIOTIPO). Leonardo você tá certo mesmo temos que defender nossa cultura independente do seguimento, temos que ter nossos direitos respeitados continamente não só nas eleições... Muita fé nessa batalha irmão. Fiell.

    www.visaodafavelabr.blogspot.com
    021-86700327

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