Funk Incolor

27/08/2009 | comentários: 0
Por Marcelo Salles, 26.08.2009

No país do “Não somos racistas”, o funk é incolor. E o povo não é dividido em classes sociais. Essa é a conclusão que se pode chegar lendo as reportagens sobre a audiência pública sobre o funk, realizada ontem na Alerj, veiculadas no Globo e no G1 (íntegras abaixo), ambos veículos pertencentes às Organizações Globo, cujo jornalismo é dirigido pelo escritor Ali Kamel (referências kamelianas no http://www.viomundo.com.br/ e no http://www.rodrigovianna.com.br/).

E, vejam bem, não se trata aqui de uma manifestação de desejo pessoal. Não é que eu quisesse que as reportagens se engajassem na óbvia interpretação da realidade carioca – partindo do pressuposto escancarado que o funk é feito, majoritariamente, por gente preta e favelada, a cor da classe trabalhadora de baixa renda do Rio de Janeiro. Não. O fato é que as Organiações Globo simplesmente omitiram a presença da antropóloga Adriana Facina, professora da UFF e colunista do Fazendo Media.

Hoje, um dia depois do evento, que sem dúvida nenhuma foi histórico, tive a oportunidade de conversar com Adriana (cuja fala publico na íntegra, mais abaixo). Pergunto: “Professora, o que de tão grave você disse para ser limada das matérias de hoje no Globo e no G1?”. Modesta, responde que não sabe se foi pelo que disse ou se a omissão ocorreu porque ela era menos famosa. Famosa? Achei que o “conceito” estivesse reservado às publicações do tipo Quem e Caras, e a programas tipo Faustão, com sua Dança dos Famosos.

Permitam que o aluno discorde da professora, com todo o respeito. Qualquer jornalismo que se pretenda sério deve ter outros critérios de noticiabilidade e, no caso de uma brilhante pesquisadora como a Adriana, o correto seria extrair de seu pensamento a raiz da opressão contra o funk – algo, assim, totalmente esquecido pelo jornalismo kameliano, como se a própria audiência pública, tema base único das reportagens, tivesse sido chamada por um outro motivo qualquer, que não fosse esse.

Pois Adriana disse, logo no início de sua fala: “Quero começar relembrando que o que o funk sofre hoje na verdade é um capítulo de uma história mais antiga de criminalização da cultura negra no Brasil. A perseguição aos batuques que vinham das senzalas, à capoeira, ao maxixe, ao samba, entre outros, fez parte da formação da nossa sociedade, profundamente opressiva com os debaixo”. Estava ali, logo no início. Não precisava garimpar muito, não precisava ser doutor para entender as palavras radicalmente simples da professora da UFF.

Futuro do movimento funkeiro

Para minha surpresa, recebi o telefonema de MC Leonardo, que muito justamente cobrou minha ausência na Alerj ontem. Expliquei que estou com três artigos para entregar até amanhã e, como salário de jornalista de esquerda não é lá essas coisas, não posso abrir mão dos raros frilas que me aparecem. De qualquer maneira, vale situar pra quem está chegando agora: Leonardo, autor com seu irmão Júnior de Rap das Armas, Endereço dos Bailes e outros funks consagrados, é o presidente da APAFunk, a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, criada há apenas um ano.

Meu amigo Carlos Latuff, um dos maiores cartunistas que conheço, disse que Leonardo foi ovacionado na Alerj. Eram quase mil pessoas, que lotaram plenário e galerias, 70% deles favelados que nunca tinham entrado na Casa Legislativa. Leonardo me diz que o funk conseguiu unir os favelados ao Palácio, conseguiu unir os dois maiores empresários do setor (DJ Marlboro e Romulo Costa), conseguiu unir a direita e a esquerda (Paulo Melo, do PMDB, e Marcelo Freixo, do PSOL, que assinam o pedido de revogação da lei que criminaliza do funk) e, por fim, que conseguiu unir os movimentos sociais em torno de uma mesma bandeira.

Tenho certeza que Leonardo é uma das maiores lideranças já surgidas no Rio de Janeiro em todos os tempos. Tenho certeza, também, que se trata de um sujeito à altura do desafio que tem pela frente. No entanto, é preciso que ele e as demais lideranças da APAFunk, como Mano Teko, DJ Marcelo Negão e os MCs Júnior e Tiana, não se iludam, pois muitas portas estão sendo abertas em função do período pré-eleitoral – o que significa dizer que políticos canalhas vão tentar se aproximar para usar a força do funk. É preciso, ainda, que os funkeiros estejam sempre alerta. Porque a partir de agora, o sistema vai jogar pesado. Vão tentar cooptá-los ou eliminá-los de cena. E a única medida de sucesso da APAFunk será o cumprimento de seus objetivos apesar dessas pressões. Estou falando basicamente de duas coisas: manter o caráter de classe do movimento e continuar produzindo e veiculando as músicas de que a “elite” e seu mercado não aceitam.

E que o povo preto, pobre e favelado tome a Alerj de assalto no próximo dia primeiro de setembro, terça-feira, às 18h, para garantir que seus funcionários, os deputados, votem pela derrubada da lei que criminaliza o funk e, em seu lugar, aprovem uma outra legislação que entenda o ritmo como uma manifestação cultural.

Abaixo seguem os links e as reportagens comentadas acima (Matérias Globo e G1 e fala da professora Adriana Facina):

O GLOBO:

http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/08/25/funkeiros-deputados-academicos-participam-de-audiencia-publica-na-alerj-para-discutir-retorno-dos-bailes-as-favelas-767309937.asp

G1:

MC’s querem funk nas escolas e retorno dos bailes nas favelas. Eles participaram de audiência na Alerj nesta terça. Secretaria de Educação quer que ritmo ajude no trabalho pedagógico.

Do G1, no Rio

As bermudas e as calças coladas foram deixadas para trás pelos funkeiros nesta terça-feira (25). Com calças e camisas sociais, eles se reuniram nesta manhã com deputados estaduais e acadêmicos em uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). O encontro teve como objetivo discutir as leis que inviabilizam os bailes nas favelas e tentar soluções para incluir o funk nas escolas e nas comunidades.

Muitos estudantes e fãs de funk lotaram o auditório da Alerj para protestar contra o fim dos bailes e aplaudir ídolos do movimento, como Mc Serginho, famoso pela dupla com Lacraia, Mc Leonardo, DJ Marlboro e a cantora Fernanda Abreu, que falaram sobre a importância do funk. Também participaram da audiência, o antropólogo Hermano Vianna e o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol).

Cantando o Rap da Silva, um dos hinos do funk na década de 90, o deputado estadual Marcelo Freixo discursou a favor do funk e disse que o ritmo pode ser usado como uma ferramenta para incentivar a cultura entre os jovens, além de servir como fonte de renda para os comerciantes das favelas. Para o deputado, os bailes deveriam voltar para as comunidades que possuem postos da Polícia Militar, como Cidade de Deus, na Zona Oeste, e Santa Marta, em Botafogo, na Zona Sul.

Os bailes devem acontecer nos locais onde o Estado atua. Precisamos de leis que dêem orientação e que incentivem a produção do funk, um dos principais ritmos do Rio de Janeiro”, disse o deputado.

Freixo disse ainda que as letras de funk, conhecidas como “proibidão”, que fazem apologia ás drogas e a violência, contribuíram para o surgimento de uma legislação que reprimisse os bailes.

A secretária estadual de Educação, Teresa Porto, afirmou que pretende levar o funk para as escolas para a realização de um trabalho pedagógico. Para ela, o ritmo pode ser usado para a construção de letras positivas, que abordem temas importantes para a sociedade.

Projetos de apoio ao funk serão votados

A Assembleia Legislativa do Rio informou nesta terça que vai votar, no próximo dia 1º, durante sessão extraordinária, os projetos de lei 1.671/08 e 1.983/09, que tratam, respectivamente, da definição do funk como movimento cultural e musical de caráter popular. Na ocasião, também será votada a revogação da Lei 5.265/08, que estabelece regras para a realização de eventos de música eletronica, como festas raves e bailes funk.

ADRIANA FACINA:

Fala na Audiência Pública sobre o Funk na ALERJ, em 25/08/2009

por Adriana Facina (antropóloga, professora da UFF e membro do OICult)

Bom dia a todos e todas. Eu gostaria de agradecer o convite da Comissão de Direitos Humanos para participar dessa audiência e dizer que estou muito emocionada de ver a transformação impulsionada por um movimento político-cultural ocorrer diante de meus olhos.

Quero começar a minha fala relembrando que o que o funk sofre hoje na verdade é um capítulo de uma história mais antiga de criminalização da cultura negra no Brasil. A perseguição aos batuques que vinham das senzalas, à capoeira, ao maxixe, ao samba, entre outros, fez parte da formação da nossa sociedade, profundamente opressiva com os debaixo. Um exemplo importante dessa perseguição ocorreu quando Pixinguinha e os Oito Batutas, grupo de músicos jovens e de maioria negra, foram convidados a tocar na França em 1922, desencadeando a ira das elites, registrada nos jornais. Segundo Letícia Reis,

“Um articulista deplorava o fato de que fosse mostrado nos boulevards de Paris um Brasil pernóstico, negróide e ridículo (Diário de Pernambuco, 1o de fevereiro de 1922apud Efegê, 1985: 183), enquanto outro, endossando esta opinião, acrescentava: são oito, aliás, nove pardavascos que tocam viola, pandeiro e outros instrumentos rudimentares. E depois ainda nos queixamos quando chega por aqui um maroto estrangeiro que, de volta, se dá à divertida tarefa de contar das serpentes e da pretalhada que viu no Brasil (Jornal do Comércio, Recife, 1o de fevereiro de 1922, apud Cabral, 1997: 73-74).”[1]

Quanto a cultura brasileira como um todo perderia se vozes como essas tivessem sido silenciadas? Outro músico negro, João da Baiana, que hoje dá nome ao Terreirão do Samba, chegou a ser preso por vadiagem por estar de posse de um pandeiro, instrumento musical associado ao samba, visto então pelas forças da ordem como sinonimo de arruaça e violência. Essas vozes podem parecer rudes, incivilizadas, agressivas aos ouvidos mais sensíveis de seu tempo, mas expressam uma experiência social de modo único, realidades que não vemos nos jornais ou nos livros. No dias de hoje, proibir o baile funk é segregar ou tornar invisível essa experiência do que é ser jovem e favelado em nosso contexto urbano e isso nos impede de entender e transformar os problemas sociais que geraram essa situação.

Criminalizar essa cultura é criminalizar os pobres. De outro modo, como entendermos o tratamento “especial” dado ao funk? Um dos grande mitos, sustentado pelas forças policiais e pela imprensa, é a de que os bailes funks provocam violência e o aumento de ocorrências que ameaçam a ordem urbana. No entanto, sabemos que tais fatos não são exclusivos de bailes funk e sim comuns a qualquer tipo de aglomeração, sobretudo as que envolvem a juventude. Jogos no Maracanã provocam o aumento de ocorrências policiais em seu entorno e nem por isso se tornaram proibidos. Do mesmo modo, micaretas, o réveillon de Copacabana, festas em boate, chopadas e por aí vai. Portanto, fica claro que o problema não é tanto o funk (que, aliás, continuar a ser tocado em boates da Zona Sul, festas em condomínios de classe média, clubes fechados etc.), mas sim quem produz e se diverte com ele.

É preciso garantir aos jovens, negros, pobres, favelados o direito de se expressar no mundo e, sobretudo, o direito de sonhar. Por meio do funk, milhões de jovens deste estado descobrem a possibilidade de investir na carreira musical, fazendo desta um projeto de futuro sonhado. Eles criam expectativas em meio ao deserto de expectativas que são as suas vidas. Ganham auto-estima quando boa parte da sociedade olha para eles como ameaça ou como lixo, como pessoas que seria melhor que não existissem.

A criminalização do funk impossibilita isso e reforça identidades negativas que reservam ao futuro desses jovens a cadeia, a morte ou a infelicidade de uma vida de trabalho escravizante e desprovido de significado.

Por fim, o funk tem de ser alvo de políticas públicas de cultura e não assunto policial ou de segurança pública. Entretanto, essas políticas públicas devem se voltar para atender as demandas dos funkeiros, garantindo sua cidadania cultural e sua autonomia e não a sua instrumentalização e domesticação. É legítimo usar o funk em campanhas educativas e outras do gênero. Mas uma verdadeira política cultural para o funk deve garantir a diversidade e as possibilidades criativas do gênero, que não pode ser refém de um mercado que, por sua busca pelo lucro fácil, só investe no que está na moda, matando a fonte de inspiração da grande diversidade musical que compõe a produção funkeira.

Faço votos de que em futuro próximo o funk possa cantar em alto e bom som como faz o samba na música O samba nunca foi de arruaça, de Ratinho e Monarco:

Existia um certo preconceito

Que nos tirava o direito de sambar com liberdade

Mas apesar do preconceito, o sucesso era perfeito

Quando o samba ia pra cidade

Esperamos que a ALERJ, como casa do povo, e as autoridades públicas aqui presentes promovam os esforços necessários para garantir essa cidadania ao funk e aos funkeiros.

Até a vitória!

[1] “Modernidade com mandinga: samba e política no Rio de Janeiro da Primeira República”.
Capturado em:

Créditos: Marcelo Salles


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