MCs criam associação para lutar pelo ritmo 'de raiz'

19:53

Rio - Quando os MCs Júnior e Leonardo iniciaram o ‘Rap da Felicidade’, no baile de terça-feira à tarde, o público se emocionou e cantou com eles (alguns de olhos fechados) a letra de Cidinho e Doca: “Eu só quero ser feliz/ Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci”. Não era, porém, uma platéia comum, e sim de presos de uma facção criminosa na carceragem da 52ª DP, em Nova Iguaçu.

O show, que durou uma hora, foi feito com um microfone, um MPC (bateria eletrônica) e uma caixa de som, mas para Junior e Leonardo, autores do ‘Rap das Armas’, o importante era dar seu recado à moda antiga em defesa do ‘funk de raiz’. Com MCs “das antigas” como Galo, D’Eddy e William do Borel e apoio de nomes como Mr. Catra, Buchecha e MC Leozinho, eles estão criando a Associação Brasileira dos Profissionais e Amigos do Funk (Abaf).

Hoje, esse funk de comunicação não tem mais tanta visibilidade. Então estamos buscando novos espaços para levar nossas idéias, e a carceragem é um deles”, explica Leonardo. A recepção dos presos, pouco acostumados a visitas, é ressabiada, mas eles se soltam ao ouvir antigos funks, como ‘Rap do ABC’ ou ‘Endereço dos Bailes’. “A gente veio do mesmo lugar”, aprova um preso.

Titular da 52ª DP, o delegado Orlando Zaccone é promotor dos encontros culturais e ações sociais que vêm modificando o perfil da 52ª DP. Ele lembra a observação de preso de uma facção rival ao assistir outra apresentação dos MCs, há algumas semanas. “Ele disse: ‘Quando o funk falava da realidade do morro, era perseguido; agora que só fala baixaria (o termo, na verdade, era um tanto mais pesado), vai até para o Caldeirão do Huck’.”

Não é o caso, dizem Júnior e Leonardo, de tornar o funk, sinônimo de festa para milhões de brasileiros, sisudo como o rap paulistano. “Não pregamos contra a alegria e a brincadeira, mas essa ‘bundalização’ do funk não é a nossa praia. A questão é que monocultura não dá. O funk é muito mais rico do que aparece na mídia. Quando você dá muito espaço apenas para um lado, acaba com a inspiração de outro”, diz Leonardo.

Diziam que baile funk era ponto de drogas, depois de brigas e agora de prostituição”, lamenta o MC. Ele reconhece, porém, que a situação já foi pior. “Temos gente com ‘voz’ que sai em nossa defesa, como Lulu Santos, Fernanda Abreu e Monobloco. Se o funk fosse samba, Regina Casé seria nossa Dona Zica”, compara.

O principal objetivo da Abaf é obter, do poder público, o reconhecimento de que funk é cultura. Ontem, o projeto de lei 4.124, de autoria do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que define o funk como manifestação cultural, foi enviado à Câmara Federal. Os idealizadores da Abaf festejam. “O funk vive de forma irregular porque até hoje não existe legalmente. O movimento surgiu de baixo para cima e hoje está em todos os cantos do País. Só queremos, com esse potencial, discutir as questões da favela, que é onde ele é feito”, conta Leonardo.

Terça-feira, na despedida do baile, a letra de ‘Alvará’ emocionou os presos. “Já vai chegar a liberdade/ Saio sem dever nada à sociedade/ Vou encontrar a dignidade”, cantaram os MCs. Deixaram a carceragem sob aplausos.

Fonte: O Dia, Ricardo Calazans

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