O batidão entre a perseguição e a resistência

14/07/2009 | comentários: 0
Funk Carioca


Um ano após a lei estadual 5.265, que dificulta a realização de bailes funk, profissionais denunciam a repressão policial a cantores, compositores e até a quem simplesmente gosta de ouvir o ritmo popularizado nas favelas do Rio de Janeiro. Na outra ponta, surge a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk, cujo objetivo é unificar e politizar a categoria que leva para as pistas centenas de milhares de jovens todos os fins de semana.

Cidade de Deus, domingo, 14 de junho. Chego à rua GG, que na verdade é um espaço vazio, de terra batida, entre cinco ou seis edifícios. Circundado por bares e mercearias, o lugar deve ter o tamanho de uma quadra poliesportiva, talvez um pouco maior. São três da tarde, faz sol e as crianças se divertem. Brincam de pula-pula e de bola. Não resisto e acabo jogando altinha com eles. De repente, a bola cai na lama, suja pouco, quase nada. Mesmo assim um pequeno a toma pela mão e diz: “peraí, tio”. O menino, magrinho, uns 12 anos, esfrega a bola no meio-fio e completa: “pra não sujar sua calça”.

Olho pra trás e vejo um policial militar se aproximando. Daí a dez minutos aparece uma blazer da PM, que promove um escândalo inominável: com fuzis – que são armas de guerra - apontados para fora, o carro faz uma ronda passando por vezes muito perto das crianças que ali brincavam.

Enquanto isso a turma montava a aparelhagem de som no final da rua. Ainda era dia quando o sargento Alcântara foi até o DJ e afirmou: “dez horas tem que acabar”. Com um fuzil semiautomático a tira-colo, ele fazia cumprir a ordem do comando da polícia, que se baseia numa lei (ver quadro) que na prática inviabiliza a realização de bailes funk – a autoria é do ex-chefe de Polícia Civil e ex-deputado estadual Álvaro Lins (PMDB-RJ), cassado e preso sob acusações de formação de quadrilha, facilitação de contrabando e lavagem de dinheiro.

Na verdade, o DJ nem ficou tão aborrecido com o policial. Este era o primeiro evento de funk realizado na CDD, berço desse ritmo no Brasil, desde a ocupação policial, em novembro do ano passado. Aqui nasceram letras como “O povo tem a força, só precisa descobrir / se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui” – verdadeiro hino da classe trabalhadora –, escrita por Kátia e Julinho Rasta e popularizada pelos MCs Cidinho e Doca. Neste domingo, por insistência da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk), o comando da PM autorizou a realização de uma roda de funk, prestigiada por gente de todas as idades, incluindo meu parceiro de altinha.

A Lei 5.265, de junho de 2008, encerrou – direta ou indiretamente – bailes em pelo menos 60 casas no Estado, segundo Tojão, dono da equipe de som Espião Shock de Monstro. Isso dificulta muito a vida de quem vive do funk – cerca de 10 mil pessoas no Rio de Janeiro, segundo as contas da Apafunk. São DJs, MCs, dançarinos,compositores e empresários, mas também técnicos de som, motoristas, auxiliares e toda uma gama de trabalhadores que, na década de 80, segundo o antropólogo Hermano Vianna em seu livro O mundo funk carioca, mobilizavam mais de um milhão de jovens (cerca de 20% da população da capital fluminense) em 700 bailes todos os finais de semana em torno dessa mistura de soul (música negra estadunidense,cujo maior representante foi James Brown), miami bass (batida eletrônica) e percussão africana. O resultado é o batidão que hoje está entranhado na cultura do Rio de Janeiro, sobretudo nos espaços populares.

A professora Adriana Facina, do Departamento de História da UFF, acompanhou de perto o funk carioca durante um ano e meio para sua pesquisa de pós-doutorado. Entrevistou mais de cem pessoas, esteve em duas dezenas de favelas e foi a bailes da zona sul à zona norte. Após todo esse trabalho de campo, ela acredita que o que existe é uma perseguição à população afrodescendente.

Os que hoje querem proibir o funk são herdeiros históricos daqueles que, no passado, quiseram calar os batuques que vinham das senzalas”. A propósito, o brasão da Polícia Militar do RJ ainda ostenta os ramos de cana e café, produtos que sustentaram a economia brasileira – movida a trabalho escravo – num passado não muito distante.

Como é comum acontecer numa sociedade de herança de três séculos de escravidão, a música diaspórica, elemento fundamental de identidade negra, forma comunicacional principal dos modos de vida, dos valores e de denúncia da população afro-descendente, é vista com grande desconfiança pelas elites”, complementa Adriana.

Continue lendo: Caros Amigos- Julho/2009

Créditos

Matéria: Marcelo Salles

Foto: Fernanda Chaves


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