Só queria essas alegrias assim, mas nem assim!

05/08/2009 | comentários: 0

“ Coração, tão resistente que “762” não perfuram, tão frágil que petalas de rosas dilaceram”

Faz um tempo, numa das “confusões” que meus e-mails causaram na lista da REDE a Isabel de Manguinhos disse que eu tava doente da cabeça, que eu precisa me tratar.

Já faz algum tempo que deixei de causar “confusões” na lista da REDE mas o que disse Isabel, nunca me saiu da cabeça.

Na hora fiquei bolado com ela, mas de vez em quando fico achando que ela tem razão.

Acabo de acordar agora, tres da tarde achando isso.

Senão porque grandes desgraças já não me abalam tanto

E pequenas alegrias frustradas me atingem como um tsunami?

Assim: Durante quase dois meses levei cerca de 48 meninos do Complexo de Acari pra disputar uma Copa de Futebol Society na Barra.

Foram sete fins de samana viajando 04 horas de onibus ida/volta

Acari/Barra/Barra/Acari, ficando o dia inteiro jogando contra as escolinhas dos times masi ricos do Brasil com apenas um copo de refrigerante e meio pacote de biscoito na barriguinha favelada de cada um.

Resultado: O nosso mirim, meninos até 13 anos foi campeão.

Foi motivo de alegria pra mim, e uma ponta de inveja: varias escolinha tinham meninas jogando junto com os meninos.

Rí muito quando alguns dos meninos de nosso time achavam que iam dar canetas, lençois nas meninas dos time adversários e ficavam bolados quando as meninas é que deram canetas e lençois neles.

UMA PEQUENA ALEGRIA

Retomei os treinos depois da copa acalentando o sonho de botar umas meninas pra treinar tembém, não meninas adultas, mas meninas pequeninas, com 10, 12 anos... na idade deles.

Essa semana, ontem em fim aconteceu: uma menina, uma doce e maravilhosa criaturinha humana apareceu.

Mandei ela pegar o colete de treino e entrar na roda de alongamento e aquecimento e fiquei aguardando o protesto dos meninos. Para minha surpresa, não só não houve protesto como um dos meninos a ajudou por o colete direito outros e a orientou a fazer os exercicios e sequer “notaram” que tinha uma menina no meio deles no coletivo.

OUTRA PEQUENA ALEGRIA

Ontem também haveria um torneio no Amarelinho pra menorzada de menos de 9 anos. Seria a primeira vez que os pequeninos siriam da Parmalat, Ocupação onde moram, na beira do rio acari, pra atravessar a favela e ir pro Amarelinho do outro lado de Acari, lugar que a maioria jamais foi.

Era pra mim uma alegria a mais pois iamos acompanhandos da Danny, adoravel companheira de lutas ,que venho de Foz do Iguaçu, tá no Rio, é Nutricionista, e eu alimento o sonho de ve-la

Trabalhando no Projeto Fome de Bola, Nutríção de Cidadania cuidando da alimentação e da saúde da menorzada.

Mas aí venho a frustração: Pouco antes de subir com a menorzada pro Amarelo, começou um operação da policia civil, caveirões voadores pra lá e pra cá. Suspensa a participaçãop da menorzada, e eu não tinha ideia, não caia a ficha, do quanto tava sendo frustrante pra mim. Talvez porque eu tava mais preocupado em levar Dany de volta pra um lugar seguro, ou pegar onibus de volta pra casa. Cheio de medo que o caveirão voador da civil fizesse pontaria na gente.

Mais uma outra pequena alegria:

De manhã teve treino novamente, tinha bastante garato, uns 40.

Como sempre os menores treinam primeiro, depois os mais velhos. Depois do treino dos menorzinhos, foi o treino, dos meninos de 10 e 11 anos.

E aí mais outra pequena alegria: apareceu mais uma menina. Entrou alongou, aqueceu com os outros meninos, com a outra jogou com eles.

Enquanto isso os maiores, de 12 á 15 anos aguardavam a vez deles.

Eu estava muito feliz, queria que Dany etivesse alí de novo, queria que toda Acari estivesse alí vendo aquelas meninas treinarem junto com os meninos, como uma igual a eles.

Mas de repente, do nada, novamente o ronco do caceirão voador, e atrás do ronco da “besta” a propria besta, a menos de 150 metros de altura dando tiros a doidado.

Mandei todos sentarem no chão. De repente, “meninos” de moto e á pé passam pela quadra correndo e o caveirão paíra , há uns 70 metros sobre a quadra por uns cinco minutos, fuzis apontados pra gente.

Minha primeira reação foi jogar pedaços de lajotas nele, mas pensei nos meninos.

No que o Caveirão Voador foi atras duns meninos que tavam dentro da mata mandei as crianças correrem para casa e fiquei no meio da quadra com a maquina fotografica numa mão e uma pedra na outra esperando ele voltar.

Meus olhos tavam muito marejados de lágrimas que eu não tinha certesa que ir conseguir ver o caveirão o bastante pra foca-lo com a camera ao mesmo tempo acertar um teco com a outra.

Meus olhos tavam embaçados tanto que nem sei quem for o morador que passou na hora e puxou pra dentro de uma barraca.

Fui pra casa, tentei almoçar, dormi triste, deprimido, e acordei cheio de raiva impotente e chorando muito.

Só mesmo uma água mineral com gás e limão pra acalmar um pouco.

Já não sonho muito mais com grandes alegrias, me contentam as pequenas conquistas da meninada da favela, como uma roda de funk, um troféu num festival... duas menininhas que conquistam num boa o direito de jogar futebol á serio, numa escolinha de futebol, com os meninos.

Quando pequenas alegrias de um réles favelado como eu se frustram assim, tudo que era certesa, não passa nem por dúvida:

Mas um outra certesa, sinistra, terroristica certesa: melhor mesmo um fuzil nas mãos que uma bola nos pés destes meninos, melhor mulher de bandido e submissão, que bola nos pés e igualdade e respeito dos homens, na vidinha dessas meninas.

É isso que os governantes querem, e´isso que a sociedade civil quer pra gente, meninada favelada.

E pra gente, mais-velhos, a desesperança, o medo agudo e dilacerante do futuro, inclusive do próprio... e o cruel sentimento de impotencia de que possa haver mesmo dias melhores e mais felizes pra gente da favela.

E dai pra alcolismo, pra cocaina, pra “segurar” a depressão profunda não falta quase nada.

Só que eu só tenho conseguido me viciar em ouvir marvin gaye noite a dentro e beber litros de água mineral com gás e limão.

Esta aberta a temporada de depressão, tristeza de não saber o que e choros convulsivos por qualquer da cá minha palha.

“Ando tão á flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar” Zeca Baleiro

Quanto mais o vôo sinistro covarde, cruel, desumano de um caveirão voador pondo terror e desesperança numa menorzada favelada que só queria pequenas alegrias assim”

Leia mais aqui: http://deleydeacari.blogspot.com/

Créditos Texto: Deley de Acari

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